Ivo S. G. Reis - Artigos, Poesias, Contos e Crônicas
Textos


A edição número 351, de setembro de 2015, da revista Superinteressante, trouxe como matéria de capa a reportagem "Extremismo Evangélico" que, como era de se esperar, provocou inúmeras reações de repúdio entre as comunidades evangélicas de todo o Brasil. Alegam os membros dessas comunidades que a reportagem é tendenciosa e eivada de exageros e equívocos. 

Como o título da matéria era sugestivo e enfocava um assunto por diversas vezes tratado em nossa comunidade, comprei a revista para poder ter acesso ao texto, avaliá-lo e ver se procediam as reclamações dos crentes ou ainda se era um caso de colocar em discussão com os nossos colegas. Infelizmente, a matéria é muito longa (10 páginas) e não há como reproduzi-la aqui. Mas a revista ainda está nas bancas e recomendo aos colegas que comprem e leiam.

No meu entender, essa reportagem dá azo a que se abra uma discussão que já temos abordado por diversas vezes aqui em nossa comunidade: Afinal, existe ou não um fundamentalismo evangélico? E como desdobramentos dessa discussão, várias perguntas advêm como, por exemplo:
- Por que existe tanta intolerância dos evangélicos contra outras religiões e, no geral; contra os que não compartilham com o seu pensamento doutrinário?
- Por que se preocupam tanto com a política e procuram infiltrar-se em seu meio e impor ou bloquear determinadas medidas sociais?
- Por que são tão contraditórios, enaltecendo o despojamento dos bens materiais e, ao mesmo tempo, valorizando e colocando em prática a "teologia da prosperidade", também conhecida como "confissão positiva"?
- Por que rotulam os não-evangélicos como "pessoas do mundo", classificando os mundanos como pessoas inferiores, desprovidas de preceitos morais?
- O que pretendem, afinal, os evangélicos? Estariam pretendendo levar o país a uma teocracia cristã e acabar com a laicidade garantida pela nossa Constituição Federal?
Essas são apenas algumas das perguntas decorrentes da análise da matéria. Logo na primeira página da reportagem há um trecho em grande destaque:

"Pastores que agem como aiatolás. Intolerância religiosa nas ruas. Conheça a fúria dos fundamentalistas que ameaçam as liberdades individuais  - e as próprias igrejas evangélicas"

A partir dai, prossegue citando vários exemplos e comentários, começando com o de Lucio Barreto Júnior, o "pastor Lucinho", da Igreja Batista de Lagoinha, em Belo Horizonte (MG), que treinou uma pequena brigada de 20 adolescentes para atacar um terreiro de umbanda que comemorava a "Festa do Preto Velho". No treinamento, ensinava também aos jovens como ludibriar a polícia e escapar dos flagrantes. As palavras de ordem foram gravadas em vídeo e a missão foi cumprida. A festa, que deveria durar até as seis horas da manhã, acabou antes da meia-noite. Depois, são citadas as incitações de Silas Malafaia, Edir Macedo e outros líderes evangélicos contra os direitos por que lutam as comunidades gays; fala também da infiltração dos evangélicos na política e, em especial, na famigerada bancada evangélica, no Congresso.

Para não generalizar, a reportagem teve o cuidado de destacar que esse radicalismo extremo se dá mais nas correntes pentecostais e neopentecostais, existindo também grupos de evangélicos moderados que não comungam com essas atitudes. Ainda dentro da reportagem, infográficos mostram a evolução e o crescimento acelerado dos pentecostais no mundo, contrastando com o decréscimo da população católica. Isso sinaliza que num futuro bem próximo, e se não houver reversão dessas tendências, o número de evangélicos poderá ultrapassar o de católicos. Em nossas matérias e gráficos de estudos, previmos a ocorrência desse evento entre os anos de 1928-1930, no Brasil. De lembrar que hoje a população evangélica no Brasil é estimada em cerca de 45 milhões, havendo quem fale em 52 milhões. É um número bastante significativo e, não tenham dúvidas: no futuro, a voz desse povo vai ser muito ouvida e temida. Como será o seu relacionamento com o restante da sociedade não-evangélica é a grande dúvida. Hoje já não é muito bom. Melhorará?

Bem, não me limitei a ler e avaliar apenas a reportagem que, no meu entender, não contém exageros e inverdades, como afirmam os evangélicos. Li os comentários matérias e vídeos que se referiram ao assunto e o comentário mais sensato e menos ofensivo que encontrei, com o qual concordo em parte, foi este, no site "Teologia Crítica":
"[...] Até aqui concordamos com a crítica feita pela revista. Não apoiamos a construção de milícias evangélicas e nem o uso da força para impor a religião. Contudo, o próximo passo da matéria “condenou” o pastor Cesar Cavalcante, reitor da Faculdade Teológica Betesda, de Campinas (SP), por ter dito, em entrevista a um jornal, que tem todo o direito de pregar contra a umbanda e o candomblé. Bem, se defendemos a liberdade de crença e a liberdade de expressão, é óbvio que não só o pastor, mas qualquer cidadão tem o direito de “pregar” contra qualquer coisa! Temos o direito de pregar contra o islamismo, candomblé, espiritismo, política, governo, economia, sociedade, homossexualidade, aborto, eutanásia e o que mais nos aprouver. Liberdade de expressão significa justamente isso, que você pode discordar e publicar sua discordância em relação a crenças, filosofia, arte, cultura, sociedade, etc. Só lembramos que “pregar” é uma metáfora!
 
O próximo enfoque da matéria concentra-se no congresso e na influência cristã existente nele. O que temos a dizer é que certamente não concordamos com tudo o que a “bancada evangélica” propõe. Não somos a favor de privilégios para os cristãos e concordamos com o estado laico. Não queremos fazer a nação ser cristã “na marra”. [...]

Só lembramos que uma coisa é "opinar" e outra, bem diferente, é "pregar" e "incitar". E vocês, colegas, o que têm a dizer?

Nota: Matéria original, do mesmo autor, publicada no comunidade Irreligiosos (http://irreligiosos.ning.com/profiles/blogs/afinal-existe-ou-nao-um-fundamentalismo-evangelico) 
Ivo S G Reis
Enviado por Ivo S G Reis em 25/09/2015
Alterado em 25/09/2015
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